Apresentação

Apresentação MUNCABA constituição do MUNCAB é parte do projeto de renovação da política cultural do Ministério da Cultura, como também é uma histórica reivindicação dos afro-descendentes e toda inteligência brasileira que deseja aprofundar a necessidade de fundar os pilares do desenvolvimento em bases culturais amplas, que acolham a contribuição popular e erudita que trouxe à nossa civilização uma impressionante gama de saberes, sentires e fazeres diferenciados e próprios, que nos caracterizam como uma das mais ricas culturas do mundo contemporâneo.

Desde que o primeiro negro foi feito escravo no continente africano e trazido para o Velho Continente Europeu e para o recém descoberto Continente Americano, a humanidade conheceu uma saga até hoje pouco registrada e reconhecida, que significou uma fantástica transformação cultural no mundo inteiro. Milhões de negros se seguiram, desde o século XV até o século XIX, ao primeiro negro que pôs os pés em nosso continente como escravo. Traficados nos porões escuros dos navios negreiros, eles nos trouxeram luzes que ainda precisam ser melhor focadas e reconhecidas pela contemporaneidade. A raça humana pode resgatar na grandeza da história dos escravos uma cultura de libertação e afirmação que acaba por trazer, à história do próprio homem no planeta, valores intangíveis, que a tangibilidade desta trajetória, deixada nos objetos de arte e trabalho e inúmeros documentos históricos, testemunha em quase todo o mundo. 

Mas é na América e no Brasil que se pode perceber com toda grandeza o “quantum” desta contribuição e a sua natureza, condições decisivas para que tenhamos no presente a perspectiva de uma civilização singular e única. Apesar de perceptível esta participação tem sido negada e silenciada. 

Daí a importância da criação de um Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira que vem se juntar ao esforço de “pensadores e estudiosos da  vida brasileira que não escamoteiam a relevância formidável da contribuição, na nossa arte, do talento de origem africana, indelevelmente gravado em todas as etapas da evolução histórico-cultural do Brasil...” como diz o texto de apresentação da obra “A Mão Afro Brasileira – Significação Artística e Histórica”, organizada por Emanoel Araújo. 

O projeto do Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira já conta com a participação decisiva do Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura e Turismo, que está doando dois prédios, na área do Centro Histórico, sendo um deles o Antigo Tesouro (imóvel nº 01 da rua do Tesouro). 

Também participa deste esforço de criação do MUNCAB a UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, através da parceria, com o seu Museu Afro – ligado ao CEAO. 

Em nossas primeiras ações, incluímos iniciativas de intercâmbios intercontinentais, com países e culturas africanas, sobretudo aqueles de onde vieram maiores contingentes de negros escravos, como Angola, Moçambique e Guiné, pois certamente teremos com este continente um permanente diálogo, em busca de cooperação, para trocar informações e promover benefícios mútuos.

Mas a constituição do MUNCAB não exige somente engenharia e arquitetura novas, requer também revoluções políticas, culturais e gerenciais. Exige o esforço de convencimento de que já é tempo de reconhecer oficialmente, em um espaço institucional próprio a importância dessa presença afro-brasileira, que permeia todas as dimensões da vida social e da cultura de nosso país, sua continuidade histórica e sua força de resistência bem como a variada gama de expressões espalhadas por todo o Brasil, independente de ter sido o esforço colonizador mais centrado no seu início na Bahia e em Pernambuco, pois ele se expandiu nacionalmente, alcançando regiões mais distantes, como Rio Grande do Sul ou a Amazônia, onde o negro africano e o afro-descendente também deixaram traços de sua forte influência como elemento formador.

A criação do Museu da Cultura Afro Brasileira permitirá recompor os fragmentos de nossa formação, não só tocante ao negro, mas também no que diz respeito aos outros protagonistas de nosso processo civilizatório, como o índio, o português, e todas as outras culturas que esta primeira base acolheu e misturou, consolidando este imenso território das diversidades, que nos identifica como a pluralidade mais bem sucedida do planeta.

A Bahia terá o merecido privilégio de sediar o Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira, reclamado por outros estados. Particularmente em Salvador, que representa a Bahia como uma grande síntese, os afro-descendentes são mais do que memória. São vivas presenças na nossa história, como reivindicantes de sua memória como também articuladores de um novo presente, na política cultural que suas inúmeras iniciativas criam no tecido vivo da urbanidade local e nacional, inscrevendo gestos e atitudes novas e diferentes no cotidiano de nossa vida cultural. Não só a religiosidade dos terreiros e seus mitos transmitem ao seu povo códigos de resistência e afirmação, de auto-estima e promoção social, como também em todas as manifestações mais amplas da cidadania, como o carnaval, aportaram formas novas e criativas de transformar a nossa sociedade, pela própria mudança revolucionária de suas condições desde a escravatura.

Em toda a nossa história eles fizeram valer a diferença. E a Cidade do Salvador, conhecida pela sua negritude, é o maior espaço vivo onde esta contribuição cultural se presentifica. 

E não podemos ignorar estas contribuições. Elas servem como centro de referência do que somos e queremos ser. Desta maneira o MUNCAB deve ser concebido, para nele abrigar diversas “mídias”, escolas e outros instrumentos de difusão cultural, transformação e reconhecimento de tradições ancestrais, que sustentaram diante de condições adversas conhecimentos valiosos para nosso patrimônio como civilização. Nos prédios da rua do Tesouro, que tem cerca de 4.500 m2, serão instaladas salas de exposição, oficinas, arquivos, salas de recital, lojas e cafés, salas de aula, lan house, assim como um grade acervo de bens tangíveis e intangíveis, um verdadeiro tesouro que já foi inscrito em nossa história pelos negros e afros descendentes, para que todos possam ver, sentir e conhecer.

Ver o que somos de forma ampla é a missão cultural e política da Sociedade Amigos da Cultura Afro Brasileira. Queremos que todos vejam o que poucos vêem. Queremos fazer ver que a base fundamental de nossa riqueza como civilização, que nos credencia para um futuro maior e melhor, se compõe pelas diferenças que abrigamos em nossa identidade.

Nosso convite às empresas privadas e estatais, instituições culturais, educativas, órgãos públicos, para serem co-participantes do projeto de criação do MUSEU NACIONAL DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA é o reconhecimento das iniciativas que cabem a estas Instituições, que tem por função associar o seu fazer básico a finalidades sociais maiores, sobretudo na área da cidadania, onde certamente não falta a visão da histórica presença dos negros e afro-descendentes no Brasil, e de que os mesmos são exemplos da capacidade de resistir e provocar mudanças, considerando que aqui foram trazidos na condição de escravos e mudaram o seu próprio destino por um gigantesco processo de transformação, através do que produziram em todos os campos, desde o mais bruto trabalho braçal, que foram obrigados a realizar, e o carnaval, onde demonstram sua capacidade de louvar a liberdade e alegria de viver, dando à Bahia, ao Brasil e ao mundo, a mais criativa e universal manifestação de sua identidade, às mais complexas e sensíveis formas de compreender e produzir o mundo, nas ciências e nas artes, em nosso ambiente técnico, social e político.

José Carlos Capinan

Presidente